Tecnologia

Data center de IA na Amazônia levanta questões sobre riscos de calor

Belém Receberá o Primeiro Data Center de Inteligência Artificial da Amazônia

A cidade de Belém, no Pará, se prepara para a construção do primeiro data center voltado para Inteligência Artificial (IA) da Amazônia, denominado BEL1, de propriedade da Elea Data Centers. O projeto, que será erguido na área portuária de Miramar, está sob a supervisão do Ministério Público do Pará (MPPA), que investiga a possibilidade de evolução de "ilhas de calor" na região, já afetada por temperaturas extremas. Além disso, a ausência de regulamentação ambiental específica para a instalação de data centers no Brasil também é um ponto de preocupação.

Estrutura e Capacidade do Data Center

Com uma capacidade inicial prevista de 7,5 megawatts, o BEL1 pode ser ampliado para até 100 megawatts. Essa potência inicial, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE), é suficiente para abastecer mais de 22.500 residências na região Norte do Brasil. A Elea afirma que o data center será uma infraestrutura essencial para melhorar o acesso da região Norte a serviços de IA e computação em nuvem, tornando o processamento de dados mais próximo dos usuários locais e diminuindo a dependência de servidores situados em outras partes do país.

Preocupações Ambientais

O projeto desencadeou um inquérito civil do MPPA, que investiga os riscos ambientais associados à construção do data center. Márcio Maués, promotor de Justiça, está preocupado com os possíveis danos climáticos, fundamentando-se em uma pesquisa da Universidade de Cambridge que aponta que data centers podem elevar a temperatura da superfície terrestre em até 2°C, com picos de até 9,1°C. Essas alterações térmicas podem afetar a temperatura na região em um raio de até 10 km.

Falta de Consulta Pública e Diálogo

A falta de consultas públicas para ouvir a população local é outro aspecto alarmante. Comunidades adjacentes, como a Ilha das Onças, situadas a apenas 4,5 km do local do empreendimento, não foram ouvidas, contrariando a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A ausência de diálogo gera desconfiança e ressalta a importância de maior transparência durante todas as fases do projeto, conforme defendido por moradores e especialistas.

Potenciais Desafios de Poluição Sonora

Além do aumento de temperatura, há preocupações sobre o impacto sonoro gerado pela operação do data center. A legislação local limita ruídos a 65 dB, enquanto data centers em operação ao redor do mundo podem gerar até 96 dB. Embora o CEO da Elea, Alessandro Lombardi, assegure que medidas estarão em vigor para mitigar os ruídos, a questão permanece um ponto a ser cuidadosamente monitorado.

Ausência de Regulamentação Específica

No Brasil, a falta de regulamentação específica para instalações de data centers é um ponto de preocupação. O promotor Márcio Maués destaca que o projeto parece já estar definido, com as etapas de licenciamento ambiental consideradas meras formalidades. Até o momento, não há processo de licenciamento ambiental ou estudos de impacto sendo analisados por órgãos competentes.

Implicações para a Região e a Necessidade de Soberania Digital

O professor Marcus Braga, especialista em ciência da computação na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), sugere que o estado deve exigir contrapartidas do empreendimento, como reservas de capacidade de processamento para aplicações em setores estratégicos, como saúde e monitoramento ambiental. Essa proposta visa evitar que a região sofra um ciclo de "extrativismo tecnológico", onde apenas fornece espaço para empresas sem obter benefícios diretos para a comunidade local.

O debate em torno da instalação do BEL1 reflete um dilema crucial: como equilibrar o desenvolvimento tecnológico com a preservação ambiental em uma região já sobrecarregada. A construção do data center promete ser um marco para a inovação, mas os desafios que apresenta não podem ser ignorados.

Com informações de: G1

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